[juliana melo]

[juliana melo]

parece que soa como besteira
assassinatos em dias atuais
parece até brincadeira
brincadeira sem graça
brincadeira desgraça
arrastada pra fora de casa
morta a tiros na calçada
desastre medonho
deve ter implorado, sunponho
morreu na rua do sonho
por volta do meio-dia de hoje, dia dezesseis de julho de dois mil e nove, estava tentando me desligar do mundo ligando a televisão. logo o mundo volta a cabeça. e por duas vezes, em dois jornais diferentes, vi a mesma notícia. do primeiro desses jornais de meio-dia da televisão, já tinha me livrado por não ter apreciado a notícia. zapeei. do segundo, que acabara de começar, não pude escapar da notícia que motivou essas [nem tanto] breves palavras.
aí está tal notícia, ocorrida num subúrbio de uma cidade próxima, em qualquer desses lugares ignorados por todos os que lá não frequentam, e que, de repente, focalizou-se por uma série de televisões locais, passou-se um minuto e já apareceu outra notícia qualquer. talvez as mesmas imagens voltem à televisão no dia que os assassinos sejam descobertos. daí some-se à minha vontade de me desligar do mundo, a banalidade das notícias diárias, e eu só consegui ouvir o repórter dizer, muito poeticamente, “morreu na rua do sonho”. ou, como está escrito nesse caminho ali em cima, “o corpo dela foi encontrado na rua do sonho”, ou outro similar, não sei. sei que, à parte da tragédia diária, a poesia que está em “morrer na rua do sonho” me assaltou diversas vezes durante todo o dia. no banho, antes de sair, não consegui parar de pensar e de me perguntar o que morreu na rua do sonho. e não consegui responder. claro, uma mulher morreu lá, mas que cargas d`água faz alguém morrer tão barbaramente justamente num lugar com tal nome? nome que pode significar também esperança, ou, quase inversamente, inalcançável.
se continuar escrevendo as ideias que surgiram nessa minha cabeça durante o dia, meio desocupada que está pelas férias da faculdade, não vou escrever aquilo que estou propondo. proponho, a mim e a outros, que “morrer na rua do sonho” seja o mote para qualquer dessas coisas que chamam expressões artísticas. acho que uma música pode ficar um tanto estranha, mas hoje em dia gravam cada coisa mesmo.
não vou dizer que seja este o meu motivo principal, mas esse espaço faz referência a um problema real, quase que diário em muitos locais desse país, que é a violência contra a mulher. Jaqueline foi assassinada com dois tiros, depois de ter sido arrastada 300 metros para fora de casa. Muitas tem o mesmo fim de Jaqueline, muitas outras sofrem caladas com agressões constantes.
lançado o desafio, mãos à obra.
[gustavo pestana]